terça-feira, 15 de novembro de 2011

Jesus e o paradoxo da liberdade

Jesus e o paradoxo da liberdade

Imagem de ilustração do texto
Muitos pensam que ter liberdade é ser livre para fazer o que quiser, ser livre para realizar suas escolhas, livremente, e baseado nessa escolhas tomar suas decisões. Mas isso não se traduz como liberdade. Qualquer ser é livre dentro de certos limites. Liberdade absoluta é uma ilusão. Isso é paradoxal, pois se não podemos realizar o que queremos e não podemos tomar decisões baseado em nossas próprias escolhas, como podemos ser livre? Aonde fica o livre arbítrio? O dicionário Aurélio (FERREIRA, 1999) traz algumas definições para "liberdade" frequentemente aceitas; dentre elas: "Poder de agir, no seio de uma sociedade organizada, segundo a própria determinação, dentro dos limites impostos por normas definidas". É interessante notarmos nessa definição que não há liberdade absoluta. Essa opinião é compartilhada por John Stott, para o qual a verdadeira liberdade é a liberdade para ser um eu verdadeiro como Deus nos fez e desejou que fôssemos (STOTT, 2004 p.98). Stott afirma ser a liberdade absoluta, ilimitada, uma ilusão, uma impossibilidade. Para ilustrar isso ele dá um exemplo de um peixe em um pequeno aquário. Através de suas guelras o peixe absorve da água o oxigênio de que precisa. Os peixes encontram sua liberdade de serem eles mesmos dentro do elemento no qual encontra sua essência, sua identidade, sua liberdade. A água impõe uma limitação ao peixe, mas nessa limitação está a liberdade: de ser ele mesmo dentro dos limites que o Criador lhe impôs. Suponhamos agora que o peixinho nade dentro de seu pequeno lar de um lado para outro até que se sinta frustrado ao ponto de decidir apostar na liberdade saltando do aquário. Se conseguir cair em um lago num jardim, sua liberdade aumentaria. Porém, se caísse sobre o concreto ou sobre o tapete, sua aposta por liberdade se tornaria em morte (na obra citada, p.99-100). O homem encontra sua liberdade para ser ele mesmo no amor, o elemento no qual encontra sua essência e sem a qual a existência humana é impossível. Agostinho declara que a alma vive quando ama, não quando existe. (citado por Stott, 2004 p.100). John Stott nos apresenta uma situação interessante: "Isso nos leva a um paradoxo humano surpreendente. Deixe-me declara-lo simplesmente assim: a verdadeira liberdade é a liberdade de ser o meu eu verdadeiro, como Deus me fez e planejou que eu fosse. Mas Deus me fez para amar, e amar é dar, dar de si. Portanto, para que eu seja eu mesmo, tenho de negar-me a mim mesmo e dar de mim em amor a Deus e aos outros. Afim de ser livre, tenho de servir. Afim de servir tenho de morrer para minha própria autocentralidade. Afim de me encontrar, tenho de perder a mim mesmo no amor". (STOTT, 2004 p. 100-101). Se sou livre quando sou o meu eu verdadeiro, e encontro essa liberdade no amor, como posso ser o meu eu verdadeiro se, amar, implica negar-me a mim mesmo? Jesus ensinou-nos sobre esse paradoxo da liberdade. Em Marcos 8:35, Jesus afirma: "quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo evangelho, a salvará". Stott afirma que o substantivo grego traduzido nesse trecho como "vida" épsyche, e nesse contexto é melhor traduzido como "eu", e apresenta uma tradução "moderna": "Se você insistir em agarrar-se a si mesmo e viver para si mesmo, e recusar-se a deixar que o seu ego se vá, você se perderá. Mas, se você estiver preparado para se perder, para dar-se a si mesmo por amor a Deus e aos seus semelhantes, então, nesse momento de completo abandono, quando você pensar que perder todas as coisas, o milagre acontecerá e você encontrará a si mesmo". (na mesma obra, p.102). (O grifo é meu). João, em seu evangelho, apresenta um relato em que Jesus comparava seus discípulos e aqueles que a ele seguiam às ovelhas, e se comparava à porta do aprisco das ovelhas. Dizia, ainda que os que não entram pela porta do aprisco são os ladrões e assaltantes. Os que o ouviam não compreendiam o que ele dizia. Então Jesus afirmou de novo: "(...) Eu sou a porta; quem entra por mim será salvo. Entrará e sairá, e encontrará pastagem (...)." ([i]JOÃO, 10:7-10[/i]). Essa declaração de Jesus é uma verdadeira mostra da liberdade que temos em Cristo. Enquando ovelhas de seu aprisco somos livres dentro de certos limites. A exemplo de "peixinho de Stott", se uma ovelha decidir apreciar outras pastagens, pulando a cerca do aprisco, poderá ser dar muito mal. Poderá vir o lobo e a ovelha "aventureira" morrer. É interessante notarmos no texto de João, citado acima, que Jesus não disse que as ovelhas não poderia sair do aprisco. Antes, ele diz "entrará e sairá". As ovelhas têm liberdade de sair e entrar pela porta do aprisco. Quando o fazem por seu pastor elas não correm risco. Em Cristo temos a liberdade de entrar e sair pela porta. Encontramos nossa liberdade no elemento para o qual fomos criados: o amor. O "caminho excelente" de que Paulo fala em sua primeira carta aos Coríntios (capítulo 13): o amor paciente, bondoso. Que não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata e nem procura os seus interesses; que não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor que não se alegra com a injustiça, mas que se alegra com a verdade. O amor que "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta." (idem). Apenas em Cristo podemos encontrar esse amor. E é nesse elemento que encontramos nossa verdadeira liberdade, nossa identidade e essência. É com esse amor que Cristo nos conhece e nos vê. Por nós mesmos não alcançaremos esse amor para encontrar a liberdade que tão sonhadamente desejamos. Mas como Paulo escreve (no mesmo capítulo): Agora conheço em parte; então conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido. ([i]1 CORÍNTIOS, 13:12[/i]). Apropriemo-nos das palavras de Paulo e declaremos: Quero conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte para, de alguma forma, alcançar a ressurreição dentre os mortos. Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus. ([i]FILIPENSES, 3:10-14[/i]). ______________ Referências FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio Eletrônico Século XXI. Versão 3.0 – Novembro de 1999. Ed. Nova Fronteira e Lexikon Informática. STOTT, John. Por que sou cristão. Viçosa, MG: Ultimato, 2004. Tradução Jorge Camargo.

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